segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Atentamente

Escrevo, e escrevo atentamente, à morte que sai do cinzeiro e impesta o quarto com o seu cheiro.

Escrevo, e escrevo atentamente, ao fumo que se eleva e paira sob o teto antes de este o absorver.

Escrevo, e escrevo atentamente, à janela que se encontra aberta na ilusão de mandar os odores embora. (Na realidade esta apenas me gela o quarto com um vento frio do final de tarde noturno)

Atentamente, atento à ilusão da janela e à metáfora do fumo.
Sem atenção, deixo queimar tudo enquanto tento matar a sede em qualquer coisa que não água.

Divago e perco-me no meio dos papeis e das fotos recentemente antigas. Foco-me em tudo sem me focar em nada e perco a noção do que rodeia.

Isto é só um vazio. 
Um vazio cheio de memórias, fumo e ligeiro aroma a álcool. Isto é só um vazio e uma janela aberta para lado nenhum.

Escrevo, e escrevo atentamente, ao nada que me rodeia.

Escrevo, e escrevo atentamente, e apercebo-me que isto é a vida.

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