Sinto, tão somente, no papel. Recuso-me a uma obrigação moral, emoções forçadas, tempos perdidos.
Agrada-me a distância existente entre alma e alma, mesmo quando os corpos se tocam.
Minha vida foi passada numa impossibilidade possível, acontecimentos improváveis e não-prazeres mais que prazerosos.
Passo o tempo - que não tenho - a divagar. Divago, ora no papel, ora na existência.
Não sou mais que um pensamento súbito, um sentimento disparatado, uma essência breve. Mais não sou que um conjunto de nada, vazio, com palavras presas à ponta dos dedos em jeito de marionetas.
Ah, que um dia me atormentou esse meu conceito de ser. Hoje descansa-me. Nada sendo que não um momento, me descarto de obrigações sentimentais.
Que momento sou!, tão breve como o sol, ou a lua, ou as estrelas extintas que ainda brilham. Ah, que momento não pensado sou!
Se pensasse, seria desgraça. O peso de pensar, tão maior que o de sentir, desolar-me-ia, desencaminhar-me-ia... Oh, que pensar seria meu fim antecipado.
Antecipação não me agrada. Acelerar o presente, sem certeza que o depois existe, é a ridicularidade máxima dos corpos apressados do quotidiano.
Ser - apenas - no instante que somos, no momento que vivemos e na brevidade do dia. Ser para ser e sentir para não pensar. Oh, que ao menos a emoção espontânea que sou inibe-me o pensamento doloroso da vida do depois (ou do agora).
Divago numa felicidade irracional. Deambulo no mundo que desaba à minha volta. E encaro o nada que me cerca com uma frieza incomparavelmente satisfatória.
Que horror me descrever assim. Feliz da desgraça alheia; indiferente ao medo que rodeia e em paz... em paz com o terror desta vida que não é a minha.
Talvez seja o tal abismo de alma a alma, acerca do qual tanto li, que me deixa tão satisfeita nesta calma sem igual.
Morrerei, um dia, e comigo morrerá o mundo, mesmo que este não queira. Ah, que quando partir, tudo levarei, porque tudo é meu e nada possuo, tudo me é e de nada me sou.
Pudesse eu inventar novas palavras, novos vocábulos e continuaria a sujar as folhas, com barbaridades aleatórias, sem nexo ou sentido.
Ah, que se mais letras houvessem, minha insanidade continuaria a espalhar, pelo mundo de ninguém, para que ninguém pudesse ler...!
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