Todo o desespero que reside no sentimento de insuficiência transtorna-me a alma.
Passei, na breve vida, em busca de um sonho passado, uma capacidade inexistente e um sentido há muito perdido.
Procurei ser o que jamais serei e falar tudo aquilo que nunca poderei pronunciar.
Ai, que me deixa desolada esta consciência de que não poderei ser mais do que sou, nem sonhar além da realidade.
Toda minha alma grita dentro de mim, como se, em si, residissem milhares de almas tão ou mais atormentadas que o próprio tormento. Em mim, não sou eu.
Sou todos os instantes em que ousei ser grande; todos os momentos em que me reduzi a cinza; todas as vezes em que me deixei para trás.
Oh se, por ventura, alguém ouvisse meu caos interior... Ah, mas não ouvem; já nem eu o ouço, apenas sinto - e sinto tanto que até (me) deixo de sentir.
Chorei, por breves infinitos, toda a minha angústia, evitando falá-la, na (vã) esperança de não a tornar real.
Hoje, já não tenho lágrimas, não tenho palavras e tão pouco gestos que exteriorizem o sentimento. Hoje, e sempre, deixo-me cair no abismo interminável, sem sequer sair de meu lugar. E assumo, para sempre, o olhar frio de despreocupação, o silêncio duro, sufocante e tão ensurdecedor.
Adoto, então, esta pose, indefinidamente, até que alguém me salve de minha tempestade. Deixo-me ficar, recostada, até que esse alguém, que ao longe surge, faça silêncio e se deixe cair no abismo, à minha semelhança.
Sem comentários:
Enviar um comentário