quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Post Mortem

Morrerei só, como sempre serei, como sempre tenho sido.
Morrerei só e desamada, tal como minhas folhas perdidas nos vendavais do tempo.
Por fim, morrerei só, sem conhecer teus lábios, sem possuir teus olhos, enfim, sem teu amor.
Oh sim, sim, chamam-me Pobre, Desgraçada, Poetisa de Ninguém, Princesa da Solidão, Escrava do (não) Sentimento. Que pena tenho desses outros que do desconhecido falam.
Fui, sim, em tempos, amada, afortunada, rica de companhia e, julguei, ser feliz. Mas oh, quão preciosa me é esta solidão sem enganos ou desilusões, tentações e desejos pecadores. Ah, quão feliz sou, só.
Deixar-me-ei ser a solitária poetisa que todos me julgam, sem nunca escrever verso algum.
Deixar-me-ei ser pobre, escrevendo-me essa pobreza nas folhas sujas do destino que (me) espera.
Deixar-me-ei, então, ser a desgraçada do quotidiano, cheia de amor egoísta guardado no peito.
Em breve morrerei - sem ti, sem mim, sem nós. Oh, morrerei e levarei comigo todas as cartas de amor (ridículas!) que te, um dia, escrevi. E, nesse mesmo dia, abandonarei meu corpo, seu amor e voarei com minha alma.
Aconchegar-te-ei os dias, aquecer-te-ei a noite e proteger-te-ei quanto amares os corpos tão perfeitamente esculpidos em teu redor. Ser-te-ei enquanto te me recordares como aquela que só morreu, só partiu, só amou. E, por fim, amar-te-ei como em vida não fiz. (Talvez, quem sabe, me te declararei como nunca, em momento algum, ousei fazer!)
Morrerei, só, como sempre fui e sempre serei (em ti).
Morrerei, só e desamada, como sempre fui e sempre serei (por ti).
E, por fim, morrerei, só, sem que conheças meus lábios, sem que me possuas os olhos, enfim, sem te amar.

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