sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Fingimento

O barulho das movimentadas ruas endoidece. A inquietude e insatisfação humana constantes desolam. A não-inspiração tortura.
Quanta coisa poderia escrever, com sentido, sinceridade, com paixão, com dor. Quanta coisa te poderia escrever. Mas, como já o grande dizia: o poeta é um fingidor.
Tanto já fingi e tanto já senti nesse fingimento sem fim. E, nas entrelinhas do que real nunca foi, a minha vida fui contando, aos meus amores me fui declarando e ao verdadeiro cedi. Nas entrelinhas do quotidiano (me) escrevi, escondendo-me da companhia fingidora que sente por sentir, diz por dizer, anda por andar.
Tudo digo sem nada dizer, tudo escrevo sem nada escrever, tudo sinto sem sequer sentir.
Procuro no dia-a-dia vivido um corpo que vagueie entre as estradas do destino, entre as palavras pronunciadas, a pontuação desenhada e as emoções imaginadas.
Procuro a alma que, só, busca, feliz, o seu caminho, o seu amor, a sua casa. A alma que é livre e deseja prender-se a um futuro incerto - é essa a que admiro e busco incansavelmente.
Se ao menos a encontrasse... Ah, sim, poderia também eu abdicar de meu livre destino! Poderia sentir, falar, escrever, sem nada revelar e, ainda assim, me entenderiam. 
Quanto o desejo!
A paixão que meus escritos teriam, tão verdadeiramente fingida seria! E todos os cheiros, nomes e momentos, tão reais e prazerosos, oh, tão verdadeiramente os fingiria no papel!
Por vezes encontro-me perdida nos devaneios tardios do amanhecer e pergunto-me "que preciso eu afinal?". De alguém que me leia como ninguém anteriormente ousou ler; alguém que me escreva como ninguém algum dia coragem teve de escrever; talvez, alguém que me sinta como eu nunca ninguém senti!
Ao anoitecer, perco-me nos pensamentos abstratos, nas memórias do que nunca aconteceu e pergunto-me "que quero eu afinal?". Ah, meu Amor, só te quero a ti! A ti, que nunca me precisaste, nunca quiseste e, apenas timidamente me olhaste.
Não quero o que preciso; não preciso do que quero e , no meio de tanta desordem, volto a perder-me - não no que sinto, mas no que  deixei por sentir.
Mas de que valem minhas palavras, meus desvaires, meu caos? De que vale o que escrevo se, no fundo, não sou mais que uma fingidora?
Talvez, quem sabe, me encontrem nas entrelinhas. Ou, talvez, nunca me encontrem.
Talvez tudo seja mentira. Talvez nada seja sentido.
Afinal, "o poeta é um fingidor" que não finge o que sente, apenas sente "com a imaginação".

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