Talvez um dia aprenda a amar. Até lá vou sendo, só e feliz.
Talvez um dia seja infeliz. Quando me conformar com uma companhia eterna e uma rotina cansativa de amor.
Gosto desta solidão tão bem acompanhada, cheia de desamores fantásticos que me deixam tão cheia de nada.
Basta-me o sol, o calor, os cheiros. Contenta-me o não compromisso com a rotina quotidiana. E aconchega-me o saber que de nenhum beijo dependo para me ser.
Ser-me sempre é todo meu desejo. Ter-te, tê-lo, ter-vos. Ter todo o mundo e ser sempre, exclusivamente, minha. Quão maravilhoso é!
Cansa-me, já, o futuro que ainda não tenho. E desola-me, sempre, a possível companhia do depois.
Vivo num desagrado presente para com o provável destino meu.
Minha alma, pobre coitada, abandonou meu corpo em busca de amor. Mal ela sabe que não resistirá a tal tormento. Meu coração, desgraça a dele, que sonha um dia poder também abandonar-me. Mas não pode - oh, não pode - e bate forte em meu peito, tentando convencer-me de que te amo.
Ridículo! Louca ideia essa. Jamais te amarei, porque, como já dizia o artista, "não se pode amar ou odiar uma coisa senão depois de compreendê-la." e eu não te compreendo. Deus me livre de te compreender!, que perigo seria.
Temo amar a compreensão de teu ser, compreender teu peito e apaixonar-me por teus olhos.
Que desastre seria ouvir meu coração. Minha liberdade!, aquela que não tenho, jamais poderei perder - meu ser não resistiria.
Quero continuar, só, de coração em coração, juntamente com o vento. Quero ser um álbum repleto de memórias bonitas e tão insignificantes.
Amar-te seria uma incompatibilidade perante caminho que me tracei. E esse caminho, quão precioso me é!
Sigo, então, sem anima1, ignorando os sons de meu peito e sendo!, sendo feliz nesta ignorante falta de sentimento.
Perdoa-me. Poderia amar-te sempre, ser-te com todo meu ser (incluindo minh'alma) e compreender-te cheia de paixão em meu olhar. Mas não posso e, por isso, perdoa-me, meu amor.
«Para compreender destruí-me. Compreender é esquecer de amar.» , Bernardo Soares in Livro do Desassossego.
1 alma
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