quinta-feira, 31 de outubro de 2013

"O Poema"

Poema.


Poema frio declamado com pesar. Poema escrito no mais frio Inverno ao som da mais melódica voz. Frieza passada através das mãos do poeta, através da caneta de bico fino com a qual ele sempre escreve.
Papel velho guardado no fundo da gaveta e reservado para os mais pesados versos. Pesados de sentimento e verdade. O poeta interroga-se o porquê de continuar a escrever, de continuar a rebuscar rimas na sua confusa mente – e o papel responde. Ele escreve para se libertar de si mesmo, para libertar os outros. Escreve e inspira jovens que sentem os seus poemas e interpretam-nos melhor do que ele mesmo alguma vez poderia interpretar.
A neve cai, as janelas embaciam, a lareira aquece. No sossego da casa ouve-se a madeira a queimar e o poema a cantar. O poeta entusiasma-se, as palavras saem espontaneamente, as rimas já não são pensadas. A tinta aparece cada vez mais rápido no papel, o poema desenvolve-se. Traços, pontos, rabiscos. Da confusão sai a perfeição – pelo menos ele assim o diz.
O nevão intensifica-se, a respiração acelera, escurece. A madeira na lareira carburou, o grande fogo desapareceu. A tinta acabou, tal como o papel. É impossível ver o exterior, as janelas estão demasiado embaciadas. O poeta deixa cair a sua cabeça sobre a mesa. Tudo foi reduzido a cinzas.
Terminou e o conjunto de rimas, versos, estrofes e tercetos ficou conhecido como O Poema.

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