terça-feira, 7 de agosto de 2018

Disonore

És pertença em mim. E é esse sentimento tão bonito que me faz querer-te - não de uma maneira amorosa e tã' pouco de maneira carnal. Apenas que quero, mas não te quero o corpo, a alma ou o peito.
Encontro em ti o maior prazer de uma conversa casual, de um riso disparatadamente alto. Em ti, encontro vida, então, para quê matar-me em ti? (ou matar-te em mim...)
A felicidade extrema de ser livre de desejos preenche-me a alma. E que saudades tinha eu de me sentir tão cheia sem me afogar em sentimento!
A calma do olhar, a espontaneidade de ti. O tudo que, no fundo é nada, deixa-me numa felicidade irritantemente feliz. Ah, mas que enquanto (me) vivo como nunca, oprimo em mim uma premonição desgraçada! Será possível viver o apaixonável sem paixão? E se não for, passará o apaixonável a amável?
Oh, que horror! - seres paixão, amor e desgraça! Não quero, não posso, não ouso. Recuso-me a deixar minha alma voar e amar e perder. Recuso sentir em mim o sentimento mais bonito que acaba sempre em tortura.
Fujo do destino e fujo de mim, na tentativa de fugir a qualquer coisa que possa aparecer.
Jamais te amarei, sentirei, cantarei ou escreverei. E se, por ventura, te amar, sentir, cantar ou escrever, jamais o saberás. Porque pior que um sentimento reprimido, só a sua aceitação e demonstração.
Ah!, mas que me perco nas contradições da alma e da razão. Ah, que me minto sem mentir e sou sincera em todas as mentiras.
Atravessa em meu peito a possibilidade de seres tu. E, se fores tu, como saberei eu manter-te? Talvez, se fores tu, nunca serás desgraça em mim - mas e se eu for desgraça em ti? A ínfima possibilidade de tal acontecer deixa-me de pernas bambas e suores frios. Jamais quererei ser a tempestade (des)amorosa de ti!
No entanto, a possibilidade de o destino não nos deixar fugir e correr e esconder assusta-me o peito. Mas que sei eu dessas coisas do coração (ou da alma)? Eu que abandono sem remorso e não sinto nunca.
Oh, mas que já senti!, e senti tanto que não sinto mais - à exceção de ti. Ah, que sinto em ti e sinto tanto que nem sei o que sinto.
Então, que se dane tudo o que disse, tudo o que escrevi, tudo o que cantei. Que se dane a (não) existência de um destino. Deixemo-nos à deriva da vida e nossas almas, tão velhinhas, saberão o que fazer.

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