quarta-feira, 25 de julho de 2018

Déjà vu

O destino fez-me poeta e o destino quer-te poesia. Talvez torta, mal construída, cheia de rimas imperfeitas e gralhas tão semelhantes a mim. Talvez o acaso nos queira um poema. Quem sabe se bonito e sujo, se feio e limpo.
As estrelas fizeram de mim poesia e as estrelas querem-te diseur*. Ou talvez seja eu que tudo isto desejo e escondo o desejo em acasos que finjo crer destinados. Escondo-me atrás de palavras não ditas, sentimentos não sentidos e repetições sem coerência.
Na possibilidade de rejeitar a possibilidade do destino, creio-te ilusão em mim. Vejo em ti a apaixonante desgraça que um dia amei - a única e eterna desgraça amorosa em mim...! Refugio-me na crença de que só te quero por teres em teu ser o caos perfeito que minh'alma nunca esqueceu. Refugio-me na crença de que só te sorrio por teres em tua alma o sorriso que minh'alma eternamente recordará. E refugio-me, por fim, no brilho de teus olhos, tão igual àquele que um dia me iluminou a alma.
Ah!, seja destino, acaso ou ilusão, serás desgraça em mim, mesmo que nunca (me) sejas.
E, ah!, que sejas desgraça e caos e tempestade e vento e fogo e chuva e sofrimento - és bênção para meu ser. 
Talvez, e só talvez, se fores desgraça e caos e tempestade e vento e fogo e chuva e sofrimento, serás também inspiração. E que mais poderei eu pedir a alma alguma além de uma inspiração divina?
Temo apenas que sejas a alma que um dia me roubou ou que sejas a alma que minha alma sempre procurou (tão velhinha quanto ela!).
Quem sabe um dia nos encontremos num lapso de tempo inexistente, no final de um copo, num olhar acidental ou num sorriso discreto. E quem sabe um dia nos percamos num lapso de tempo inexistente, no final de um copo, num olhar acidental ou num sorriso descarado. 
Oh, que nada temo! - a não ser um desencontro permanente nos encontros do acaso...
...Ou do destino.

*declamador/recitador

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