Por vezes escolho ignorar meu pensamento madrugador, pela simples preguiça de me mover. Fecho a alma à inspiração súbita, mesmo sabendo que me arrependerei depois.
Não há maior bênção que a de ter o dom da palavra e a chave da inspiração. No entanto, mesmo não sendo esta controlável, há momentos em que o melhor é deixá-la trancada, para me poupar aos horrores dos textos sofridos antes do nascer do sol. São, com certeza, mais sinceros e são, com certeza, mais meus que qualquer outro, Mas por que hei eu de me escrever quando posso, repetidamente, ignorar-me no papel?
Não, vocês nunca me leram e jamais lerão. Têm tão somente o (des)prazer de passar os olhos nas palavras que desenho, mas que minhas não são.
Desengane-se quem julga conhecer-me por meus escritos. Sim, pois à semelhança de qualquer poeta, eu sou apenas um fingimento. Finjo sofrer, finjo amar e finjo até uma revolta profunda face à sociedade.
É entre as linhas e nos espaços em branco que me encontro, calada, numa espera eterna.
Aguardo por vossos olhos e vossa tolice. Aguardo eternamente por um comentário vazio de sentido, mas cheio de sentimento. E aguardo, tão somente, porque me dá prazer.
Que prazeroso é ver vossos enganos e vossas almas tão crentes de minhas palavras desapaixonadas.
Oh, que quando um dia me escrever,deitarei as folhas ao vento, para que nunca ninguém me conheça ou descubra minha alma.
O segredo de mim é fingir um segredo, enquanto me revelo em vós, nos momentos que nunca se revelam.
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