domingo, 16 de outubro de 2016

(Des)Pertença

Num encontro inesperado com o presente, perco-me.
Já nada reconheço. Minha casa, minha já não é. Meu refúgio é agora apenas mais um sítio banal.
O sentimento de pertença desaparece.
Rodeada de pessoas, vejo-me sozinha.
Junto de quem amo, sou desamada.
E, a única presença certa em mim, não está mais presente.
Encontro-me agora num sufoco.
À minha volta, os que antes me eram tudo, passam numa correria cega. E o mundo que tanto amava, já não ama.
Vivo numa realidade paralela.
Invisível aos olhos de todos, os observo, na tentativa de voltar a ser. Irreconhecível, imploro para que alguém me reconheça.
Talvez tenha morrido.
Mais viva que nunca morro. Não em mim, mas no quotidiano que era o meu.
E, oh, que no desespero sufocante da invisibilidade me deixo.
Todo o sentimento em mim desvanece. 
Meu olhar, gélido, acompanha minha alma inerte.
Pudesse eu gritar, que gritava! Pudesse eu chorar, que chorava! Pudesse eu fugir, que fugia!
Pois, pior que um coração partido, só uma alma desolada. Pior que um amor perdido, só um corpo à deriva.
E eu sou isso apenas - um olhar frio, uma alma desolada, um corpo à deriva.
Isso sou eu e eu já não sou nada.
Enquanto nada for, a nada pertencerei. E enquanto a nada, ninguém ou lugar algum pertencer, nada apenas serei.

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