quinta-feira, 6 de agosto de 2015

XIX

"Amar é possuir", Fernando Pessoa em Livro do Desassossego.


Não sei o que é pior: a ridicularidade da frase ou o eu a achar ridícula.

Não possuo - ninguém pode possuir outrem. Então, não amo?
Divido-me. Oh, quem me dera não amar!; Mas que ridículo é não amar!
Amo o Sol, a Lua cheia e as estrelas de uma noite sem Lua. Mas eu não possuo o Sol ou a Lua, muito menos as infinitas luzes do céu escuro. Não amo, portanto.
E todas as vezes que ouço a voz que mais me faz sorrir, e todas as vezes que vejo o sorriso de quem mais me faz feliz eu penso: Oh, quanto amor mais caberá em mim? Mas a tua voz não é minha e o sorriso nunca o possuirei por completo. Não te amo, portanto.
Não amo, pois se amar é possuir e os sentimentos não são possuíveis, então o amor é uma ideia abstrata, surreal, irreal.
Concluo, então, que não te amo. Uma pena, diria eu noutro acaso.
Não te amo, não amo as estrelas, os sorrisos, a lua, a voz, o sol nem o olhar, porque o amor é, aparentemente, uma metáfora.
Sinto um qualquer coisa desconhecido, sem nome, mas bem real e de formas definidas.
Amor, felicidade, orgulho, paixão... São nomes e o que verdadeiramente importa é o sentido que, abstrato ou não, é real e prazeroso.
Não o quero conhecer, não lhe quero dar nome. Só o quero aqui, agora, comigo. Só quero poder qualquer coisar-te até ao fim deste mistério sentimental.

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